26 dezembro, 2008

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Clic?

Dezembro de 1999

- Mãe, quem são esses homens segurando o papai?

- Amanda, minha filha, vá para o seu quarto. Agora.

- Mas, mãe

- Amanda, Agora. Depois eu vou ir lá falar com você.

Esse foi provavelmente o “Depois eu vou ir lá falar com você” mais longo de toda a minha vida. Demoraram exatamente 36 horas e 42 minutos até eu saber o que havia acontecido ao meu pai. Como eu sei o tempo exato que demorou? Simples, eu fiquei no meu quarto, contando o tempo. Eu e meus sete anos de vida esperávamos meus pais voltarem pro lugar que chamávamos de casa.

- Filha, seu pai teve que fazer uma viagem.

Foi assim que eu a revi, não estava com sua melhor cara ou seu vestido bordado de sempre. Não. Eu não era muito esperta, mas pude perceber que aquelas palavras não significavam uma coisa boa. E realmente não eram.

Minha mãe não me contou nada, quando eu perguntava o porquê dele não ter se despedido de mim ela falava que foi tudo às pressas, mas que ele telefonaria em breve. A mentira é claro, durou somente até o final de semana.

Foi só chegar à escola para perceber que o assunto dos meus colegas era nada menos que meu pai. “O que tem meu pai?” eu perguntava. Era respondida por perguntas como “Você não sabe?” ou pior, afirmações “Ele foi preso!”. E foi assim que descobri a verdade, ele não havia viajado, não, não, havia sido preso.

Um mês se passou, e a pesar de já saber que eu sabia o que havia acontecido, minha mãe sempre negava o assunto quando eu a perguntava. Ninguém conversava sobre isso na casa, era proibido. Seguíamos a vida normal. Até que a história começou a interferir no trabalho da minha mãe. Ela foi demitida. Já estávamos no segundo mês e devido ao acontecido ela ainda não tinha arranjado um emprego. Final do segundo mês e lá estava eu, na porta do lugar que chamava de casa, com minhas malas esperando o Táxi chegar.



Nove anos haviam se passado desde o incidente. Novos longos anos de uma vida não estável e cheia de turbulência. Por outro lado nove anos que haviam finalmente me ajudado a me acostumar com as constantes mudanças. Só pelo que me lembro agora já morei em cinco paises diferentes. E hoje, junho de 2008, aqui estava eu, de frente ao novo lugar que chamaria de casa, eu e meus recém concebidos 16 anos em Londres.

- Seu quarto é a ultima porta do corredor do segundo andar. – Falou minha mãe.

Minha mãe, ela tomou muitas atitudes erradas durante esses anos, mas com o tempo eu comecei a aceitar e perceber que deve ter sido difícil pra ela. Descobrir que o marido estava envolvido com o financiamento de armas ilegais, ver ele preso, perder o emprego, e aparentar normalidade para uma filha. Não que ela tenha conseguido esse ultimo muito bem…

- Ta certo, vou ir arrumar minhas coisas lá. E depois acho que vou ir andar um pouco, ta?

Ela tinha começado a carreira na moda que antes, com meu pai, era só um hobby, e agora era o que nos rendia dinheiro. Uma quantia nada mal por sinal, tendo em vista que a marca da minha mãe se expandiu muito. Ainda mais porque pelo menos em cada país que ficamos uma loja foi aberta!

Mas enquanto minha mãe tinha crescido nessa carreira possivelmente brilhante, eu acho que não tinha mudado muita coisa. Em toda minha vida só tive um namorado, e isso foi antes de descobrir que meu pai havia sido preso. Nas duas primeiras cidades em que ficamos eu até fiz bastantes amigos, mas o sentimento de ter que abandonar tudo depois de ter conseguido enfim formar laços estáveis de amizade me fez perder a vontade de formar outros a partir da terceira cidade em que morei. Aprendi a controlar o “nível de importância e influencia” que as pessoas podiam ter na minha vida e a partir daí nunca mais consegui me envolver com alguém.

Abri a porta da casa, pelo que eu tinha reparado era uma casa normal, ainda mais porque todas as casas na rua eram iguais á essa. Dei de cara com uma sala… Confortável, com uma porta pra cozinha, outra pra com certeza um futuro quarto de trabalho pra minha mãe, e uma terceira que descobri ser algo parecido com uma biblioteca. Não pude deixar de sorrir, como não tive muitas coisas pra fazer, durante esses anos tinha adquirido um gosto árduo pela leitura além de uma enorme coleção de livros que realmente precisariam daquele espaço. Obrigada mãe.

Mais à frente da sala havia uma escada que dava para o segundo andar, que era formado por um extenso corredor repleto de portas e uma ao fundo que, imaginando ser a do meu quarto, abri.

O quarto definitivamente não era ruim, tendo em vista os outros que eu já havia tido depois do ocorrido. Era grande, e já estava com os móveis. No centro do quarto havia uma cama de casal que fiz questão de cobrir com uma colcha que fora bordada pela minha avó, havia também uma penteadeira, um armário e uma escrivaninha onde coloquei meu laptop e o resto das coisas que estavam na minha bagagem de mão.

Foi aí que reparei na parede vazia do quarto, era uma parede de madeira e possuía uma janela avarandada, onde coloquei algumas almofadas. A parede porém foi provavelmente a minha parte favorita do quarto. Aproveitei o espaço e o clima que a madeira criava para pregar todas as minhas fotos. Sim, fotos. Era algo que eu gostava de fazer, fotografar. E pelo que parecia eu nem era tão mal assim. Tinha fotos de todos os lugares que eu morei, e outros pelos quais só passei, sem deixar de lado é claro a minha foto favorita. Nela pode se observar a minha mãe com um belo sorriso no rosto, eu segurando um urso de pelúcia desgastado, e a melhor parte da foto que sou eu sendo abraçada por ninguém menos que meu pai. Você pode achar estranho, tendo em vista todas as coisas horríveis que ele fez, e que eu provavelmente nunca vou descobrir. Mas apesar de tudo isso, eu sei que pelo menos quando estávamos assim, como na foto, eu ele e minha mãe, ele não era esse homem horrível de quem ouvi falar. Ele era meu pai. Aquele que eu sempre esperava chegar do trabalho pra ir correndo abraçar, e sentir ele apertando meu nariz enquanto dizia que me amava. Naquela foto ele era o pai que me fazia tanta falta.

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