31 outubro, 2009

Capítulo 5

Sempre havia negado essa possibilidade e agora ela estava ali. Partindo-me o coração, se é que assim posso dizer. Meu querido Nick havia me deixado. Depois de quatro anos, cinco dias, um estúdio e muito medo, ele não agüentou. Sempre tive aquele medo como algo que me cativava. Uma prova de amor, talvez. Céus, como fui tola! Devia ter praguejado e enterrado aquele medo há muito tempo!

Chovia a uma semana em Paris, mas durante aqueles minutos não vi nenhuma gota cair. “Foi você quem me ensinou a sorrir, Pequena” – Ele falou. Eu o encarei estática. “Odeie-me agora, vai ser o melhor pra você” – “Não vou te odiar, Nick. Você sabe que eu não conseguiria mesmo que tentasse.”

E assim ele se foi. Eu continuei lá até a chuva voltar a cair, inundando meus olhos por mais quatro meses.

"I'm not drowning fast enough"

Relembro às conversas, os sorrisos, as respirações. Projeto-me no futuro com novos olhos e boca, mas com o mesmo amor. Vejo-me acreditando que o amor não vai acabar. Você se vê acreditando que ele acabará. Se vê tentando enterrar o amor que todo dia saúdo com alegria. Melhor, se vê descrente quanta a existência do mesmo. Eu, nossa casa, e até mesmo o nosso gato esperto te ama. Mas de que adianta tal amor? Tola sou eu ao saudá-lo. Um só querer o tornou amargo. Se prometi me cuidar, desculpe, menti.

29 outubro, 2009

Logo Ali

Era pra ser algo conjunto, lembra? Mas você se adiantou. Sempre se adianta. Principalmente com fins. Seu fim, o nosso fim, o meu fim dentro de ti. Eu sei que já cansei de perguntar os porquês, mas não esse. Por quê? Eu tinha algo para lhe contar, Menino. Algo que lhe agradaria. Não vou mais ao hospital, sabia? Decidi parar com isso. Dessa vez vou realmente me cuidar. Queria ouvir o seu sorriso quando lhe contasse. Mas só me restou soltar essas palavras e torcer para que elas cheguem a ti.

Às vezes o vento me lembra...

26 outubro, 2009

Com afeto

“Quando eu nasci, todos sorriam e eu chorava. Quando eu morri, todos choravam e eu sorria.”

- Não quero ser enterrado em um caixão. Quero alimentar a arvore que plantará sobre mim.
Encaminhamo-nos até a árvore que queria. Lagartas. Não sou boa com números, mas diria que eram mais de cem. Uma fusão de tons de laranja, preto, vermelho. Retiramo-nos de lá. Fomos até o campo dos indigentes. Enterrei a carta.

“Arco-íris,
Essa carta não será um derrame de lamentos e sei que isso, para muitos, há de ser a prova de que não nos amamos o suficiente para fazeres parte de mim. Com sorrisos hipócritas, alegaram que um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; Mas a falta do eu mesmo, essa lacuna é tudo. Não lhe escrevo lamentos, amor, pois sei que não lhe perdi.
Amores não morrem, não acabam. Não amores como o que tenho por ti. Diriam que ele só permaneceria enquanto um de nós vivesse. Digo o contrário. Digo que nós dois criamos um amor e não há nada que possa matá-lo. Talvez digam isso, pois não sabem enxergar um amor que lhes é estranho. Rotularam o amor que transformamos em apenas uma lembrança do que há muito deixou de existir.
Todos os dias um novo amor surge. Cento e oitenta e dois tipos de amores podem estar rodeando o nosso vizinho agora e ele só consegue enxergar um.
Escrevo, então, para lhe agradecer. Agradecer, pois graças a ti agora sou capaz de enxergar os amores que vagam por aqui.

Obrigada.
Os sorrisos de sempre,
Eu Amo Você."

21 outubro, 2009

X

Acho que nunca dei sorrisos tão tristes (como esses).

16 outubro, 2009

Enfim, meu doce lar.

Tirei as cartas do bolso. Estava lotada de pressa. Uma para cada amor, uma para cada sorriso.  As deixei em baixo de uma garrafa que tinha pintado na noite anterior. Haviam estrelas e cores derramadas por lá. Você me chamou, usou um pronome possessivo no começo da frase, sorriu. Lá vinha o sol. Tampei meu rosto com as mãos, sorri. Abriu a porta do carro para mim. Era amarelo, um fusca. Tocava The Diamond Sea do Sonic Youth.

Iríamos ao Novo México e eu desenharia corações de protetor solar em sua pele. Depois, congelaríamos na suíça enquanto esperamos o café esquentar. Pescaríamos sonhos no ártico e memórias no sul. No paralelo 45 você diria que me ama e no 50 escutaríamos Beatles até pôr-do-sol.

13 outubro, 2009

Fora De Foco

E então, nós perdemos contato. Contato com o mundo, contato com alguém. O fogo embaçava a minha vista. Eu não seria capaz de enxergar algo um palmo a frente de meu nariz. Mas você não estava a um palmo de meu nariz.

Era uma noite fria de outubro, mas eu não sentia frio.

12 outubro, 2009

Perca Tempo

Estava chutando algumas pedras, ao lado do parquinho com um carrossel, quando ele se aproximou. Eu tinha chegado há alguns dias e ainda não tinha me acostumado com o clima. Ele usava uma fantasia do Batman. Chutei uma pedra que foi parar em seus pés, ele sorriu, a pegou na mão. Sorri de volta. “Apolo” falaram.

A partir daí me perdi naquela imensidão azul que parecia se achar dentro de mim.

11 outubro, 2009

Capítulo 4

Querido Nick,

A argentina continua linda. Hoje fui esquiar com a Stella. Ao contrário dela, sou péssima com esquis e agora estou com band-aids coloridos em todas as partes do meu corpo. Foi divertido. Escrevi seu nome na neve, com gravetos, como lhe disse que faria. O chocolate quente daqui é fantástico, mas é o conhaque que me lembra você. Está muito frio aqui, agora as pessoas realmente acreditam que tenho epilepsia. Estou usando luvas vermelhas e finalmente achei os casacos com esqueletos. Tenho sentido sua falta. (Mais do que de costume).

Os sorrisos de sempre,
Eu amo você.

Capítulo 3

O parque estava vazio, chovia. Como eu não carregava bolsa, Nick teve que cobrir as poesias com a sua blusa xadrez. Eu o abraçava. Protegia seu tronco nu da chuva enquanto esperávamos a fila andar.
Entramos, a cabine era azul com um banco circular no centro. Estávamos a sós na cabine. Abrimos o vinho. Três goles por poesia.
“Jamais deixa o lodo de ser lodo,
E a estrela de ser estrela.
Mas basta a luz nele acesa,
Para que o barro vil reflita
Daquela flama infinita,
Toda a infinita grandeza.”
Nick apagou o seu último cigarro.

04 outubro, 2009

Capítulo 2

Vi Nick se afastar da cama, vestir um moletom e escrever “Não se levante” no quadro branco. Vivíamos em um grande estudio, então fiquei o observando andar de um lado para o outro por 27 minutos.

Carregava uma bandeja com torradas, café, e poesias. Sentou-se ao meu lado e com um de seus melhores sorrisos falou “Passaremos as próximas vinte quatro horas nessa cama e você não tem o direito de contestar essa decisão”.

Nick tinha um curativo do tamanho da palma da minha mão em seu braço esquerdo. Ontem ele tatuou um triângulo ali. Segurei a sua mão enquanto fazia a tatuagem. Ele não precisava daquilo, mas o fiz para poder brincar com seus dedos.

01 outubro, 2009

Desenho

Preto. Se eu não conhecesse o caminho teria ido d’encontro com alguma parede. Você tinha acabado de sair. Eu tinha acabado de perceber que era uma mera espectadora. (Oh, meu bem, onde fomos parar?). Senti a camurça roçar o meu pé.  Parei com todo aquele esforço, caindo sobre o tapete. Desmaiei.

Sonhei contigo, Menino.
Lembro-me de estar caindo em um buraco sem fim. Tudo qu’eu havia guardado se resumira a um líquido laranja e azul que escorregava para fora do meu corpo. Olhei para o lado. Você também estava caindo. Nada parecia escorregar de ti. Tentei lhe chamar. Antes que pudessem te alcançar, os sons caiam. 

Me mantive deitada ali.
Ainda posso vê-lo caindo ao meu lado.