14 novembro, 2009

Capítulo 7

Olhava, aflita, os borros de tinta que inundavam a tela a sua frente. Podia senti-lo a encarando. Logo ali, sentado na poltrona de veludo vermelho, a sua esquerda. Fingia estar entretido com um livro qualquer, mas a cada virar de página, ou gole de vinho, seus olhos se punham sobre ela.

“Pare de me encarar. Assim não vou ser capaz de produzir mais que borrões de tinta.” Ela falou, mordendo a ponta do pincel.

Ele se levantou da poltrona, caminhou até ela. Olhando-a nos olhos, tirou tudo aquilo que a vestia. Ela riu e, dizendo se sentir solitária demais sendo o único ser humano nu do cômodo, tirou também as peças de roupa que o escondiam.

Pegou o pincel que ainda era pressionado pelos dentes dela. Mergulhou-o na tinta vermelha. Pintou-a da ponta dos pés a pinta no olho esquerdo. Ela fazia o mesmo. De azul, da cova esquerda aos calcanhares. Quanto aos lábios, foram os únicos que, entre beijos, resistiram às cores.

Por fim, deixaram seus corpos cansados caírem sobre o sofá. Sofá, que antes era apenas um velho sofá de lona branca, era agora o sofá mais lindo do mundo.

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